CleopatraMoon

Um Mundo à parte onde me refugio e fico ......distante mas muito próxima.

A minha foto
Nome:
Localização: LISBOA, Portugal

Sou alguém que escreve por gostar de escrever. Quem escreve não pode censurar o que cria e não pode pensar que alguém o fará. Mesmo que o pense não pode deixar que esse limite o condicione. Senão: Nada feito. Como dizia Alves Redol “ A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica.” Sou alguém que gosta de descobrir e gosta de se descobrir. Apontamento: Gosto que pensem que sou parva. Na verdade não o sou. Faço de conta, até ao dia em que permito que percebam o quanto sou inteligente.

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sexta-feira, julho 06, 2007


Era Inverno
a cair ligeiramente para o Verão sem Primavera pelo meio...
Chovia. Uma chuva lisa, densa, cortina de olhares, manto a encobrir beijos e desejos.
Um vulto de mulher, braços caídos e agarrados nas mãos espantadas com os beijos encobertos pela chuva....
Vontade contrariada, desejo travado pelas vontades alheias...
Embaciamento de olhares, vidros a escorrer vontade de amar.
Os vultos,...surpresa para quem não foi amado,...não sentiu o desejo encharcar a alma...
À chuva, ...surpresa com os dois vultos que se procuram, os lábios desejosos da alma do outro.
Mulher triste, cansada da vida que nunca foi sua...
Separados os vultos, os lábios, os dedos, no espanto do olhar da mulher...
A chuva lava-lhe o rosto...
São lágrimas ou, apenas, a cortina que encobre o desejo dos que se separam e ainda têm tempo de guardar a imagem dela na memória?....
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ACCB

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quarta-feira, julho 04, 2007


Texto de Guerra Junqueiro - Pátria - 1896
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"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;

um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. [.]

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

-Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

-A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."
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Guerra Junqueiro, "Pátria", 1896.
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NOTA: Repare-se bem na data. Embora não pareça, isto referia-se à situação de 1896 !!!
A nota é do meu amigo que me enviou o texto.
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terça-feira, julho 03, 2007

Bush e Putin buscam superar diferenças
e reforçar laços entre
EUA e Rússia
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....as diferenças sobre o plano dos Estados Unidos de instalar um sistema de defesa antimísseis na Europa oriental.....

Repare-se que a Europa nem lá esteve!

Novamente a Europa no meio???
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( Já repararam que o Putin ainda é mais baixinho que o Bush?? Ah Pois!
Hitler era baixo,..Napoleão era baixo,...)
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segunda-feira, junho 25, 2007


Não tenho escrito com a alma.
Eu sei que não tenho escrito com a alma.
No fundo, é uma forma de ponderar, igual à do CR.
Ponderar se fico ou se vou com as aves.....
Apetece-me ir e apetece-me ficar.
Há alturas na vida em que escondemos a alma.
Não sei porquê,... acho que nunca o tinha feito...
Mas, esconder a alma será um defeito, uma necessidade, um refúgio ou uma defesa...
Eu não gosto de esconder a alma.
Violenta-me essa forma de estar na Vida.
Esconder a alma é uma fuga.
Um fechar de olhos ao que não queremos que saibam que encaramos, que vemos, que sentimos.
Eu não quero esconder a alma, não quero não voltar a escrever com a alma...
Faz-me falta escrever com ela....É-me vital escrever e ler a alma...
Que faço?
Fico ou vou com as aves?
ACCB

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domingo, junho 24, 2007

Este Homem - Manuel - escreveu um texto lindo a uma mulher que faleceu com 47 anos. -Adeus a um Anjo...

Não deixem que as mulheres que amam morram sem saberem o que sentem por elas.
Vale a pena ler.
E eu que não gosto de touradas, pela simples razão de que não gosto daquelas farpas que ferem o touro ... Mas gostei deste texto, escrito por alguém que gosta das ditas, e da forma sentida como lembrou uma mulher... a quem amou e, ao que parece, ainda ama.

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quarta-feira, junho 13, 2007


HOJE DEU-ME PARA FALAR EM BUFOS

Quando eu era pequena havia bufos.O meu pai tinha olho clínico e sabia quem eram.
Eu não, mas pareciam-me todos iguais.Tinham uma maneira de andar subserviente e alguns, curvavam-se mesmo fisicamente.
Eram magros e os olhos fugiam dos nossos.
Alguns sentavam-se à mesa em jantares de sociedade e figiam rir-se do mesmo que os outros se riam e, se não lhe tocaram nunca,... juro que não percebi nunca porquê.
O Jornal do Avante aparecia na nossa caixa do correio e , indiferente a minha mãe tirava o correio e deitava o dito jornal no chão, bem debaixo do nariz do vulto que na esquina em frente fingia esperar alguém.


Hoje eu sou mulher e os bufos estão mesmo ali.Já não andam curvados, apresentam um nariz bem empinado e vestem bem,...Mas os olhos continuam a fugir dos nossos!
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ACCB

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terça-feira, maio 08, 2007

Ainda a Violência Doméstica
É com esta imagem que o Manza faz uma postagem relativa à Violência Doméstica.
Postagem essa verdadeiramente informativa e com imagem abrangente e significativa de um conjunto de violências que têm lugar no seio de algumas familias.
E olhem que não são assim tão poucas.


A Violência doméstica não é exercida apenas por homens mas, também, por mulheres, por filhos e pais, por tios...por seres que partilham uma vida familiar comum.
E não pensem que é apensa fisica.
Há a violência psicológica, a que muitas vezes leva ao suicídio.

Maria, não importa o nome, era uma rapariga que podia ser qualquer uma de nós, ou filha de um de nós, ou irmã... Enamorou-se de um tipo... Mesmo contra a vontade dos pais decidiu casar com o tipo.
Tremendamente ciumento fazia-lhe sessões nocturnas de tortura psicológica, disfarçada de:
- vamos conversar, amo-te muito, onde estiveste...
Quando tiveram o primeiro filho, ele não suportava o choro da menina e agredia ambas, puxando os acabelos à mãe e batendo-lhe e, atirando sapatos e outros objectos à criança.
Anos neste ambiente, em que enervado com os brinquedos de Maria filha, os pisava e destruía, irritado ou enervado, fechava-as em casa...
Queixas?
Todas retiradas...
Até que um dia de manhã, Maria se suicidou....Atirou-se da janela por onde lhe permitiam a saída de casa. Um 5º andar.
Julguei o tal tipo há dias ... é um de entre tantos outros... Nem apareceu no julgamento... A Lei permite-lho.
Apareceu a filha,....apareceram os sogros, os conhecidos, alguns amigos...
Maria também não apareceu.

Eu tinha prometido algo mais longo e demorado sobre este tema.

É um assunto que nos preocupa, até porque a Família deve ser o elo essencial e indissolúvel, que permita ao ser humano formar-se com equilibrio e serenidade, proporcionando assim ao seu semelhante, um equilibrio de personalidade indispensável a uma sociedade estruturada com base em valores que não desprezamos.

Tive uma vez um homem vitima de violência doméstica...sorriu envergonhado, que já estava tudo bem, que também tinha dado oportunidade, que queria desistir...
A tristeza era o espelho do seu olhar.
A mulher ao seu lado ria-se como se na verdade tudo tivesse sido ocasional... Uma briga de namorados, uma desavença entre quem se ama...um bate boca apenas...
Mas o respeito morrera no dia em que ela deixara de o respeitar e o agredira fisicamente... e com ele, morrera o homem que havia dentro dele.Não tinha sido um desentendimento de quem se ama.
Homologuei a desistência, contrariada... A lei permitia-o.
Saíram ambos por aquela porta,...ainda os revejo hoje...na tristeza do olhar dele e no sorriso idiota dela...
Não havia nada. Nem pena.

****

Mas as crianças senhor, porque lhes dais tanta dor? Porque padecem assim?

Manuel tinha 6 filhos. Todos com um ano de intervalo ou dois. Perdera o emprego e os filhos pequenos ficavam à sua guarda....Guarda... Ficavam à sua mercê. Dormiam a 3 e 3 na mesma cama. Num quarto sem janelas , sem condições, sem mimos...

A mais velha era vitima de abusos sexuais quando ele lhe dava na veneta e a ía buscar à cama durante a noite, mesmo quando se deitava do lado da parede para lhe escapar.

O de três anos se se "portava mal" tinha de lavar a loiça e era proibido de almoçar...........ficava sem comer tantos dias!

Os outros apanhavam ou com um cinto ou com as botas, ou com ...o que tivesse à mão.

Os filhos não o quiseram ver. Franzinos, ...crianças tristes, vestidas com roupas escuras, lá da instituição de onde vinham...Santo Deus! Tanta dor. Crinças doridas, feridas, sós, ... carentes,... cheias de medos...sorrisos esquecidos...Como se sorri pareciam os olhos perguntar?

No dia do julgamento, ele, era um pedaço de farrapo humano. Confesso que quando recebi o processo e marquei data para julgamento, depois de o ler, imaginei o homem mais frio, mais brutal, mais terrivelmente violento que se pode imaginar...Há sempre um cenário que nos passa pelos olhos, pelo sentir, antes da realidade...

Olhámo-nos nos olhos. As mãos estavam presas uma na outra, penduradas dos ombros e, os olhos eram lagos estreitos e profundos de tristeza e frustração. O primeiro gesto foi um encolher de ombros...os outros foram sacudir de ombros por soluços de quem chora como se chorasse por outra pessoa...outra alma...outra vida...

Confessou os factos.

Nunca tive casos de violência contra idosos. Mas sei que os há. Talvez sejam menores as queixas, porque são eles quem tem menos voz, menos capacidade de locomoção...menos capacidades... menos....não sei. Custa-me pensar que alguém lhes possa fazer mal, mesmo quando são "chatos", exigentes, e fazem chantagem emocional...

Será que seremos assim?


A Violência doméstica, mais precisamente as vitimas de maus tratos, merecerão do legislador mais atenção e cuidado na revisão do CP.

Volto outro dia para falar da lei que vem aí. Mais assertiva, mais preocupada, mais realista. Mais justa.

Mais conhecedora das realidades que nos rodeiam. Do silêncio da solidão da vergonha de quem é

vítima de maus tratos.


ACCB


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quinta-feira, março 22, 2007


***


Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem "

Sophia de Mello Breyner Andresen

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Há dias um amigo comentava comigo que eu vivia tudo intensamente.Demasiado intensamente.Que não podia ser assim.Que tudo na vida é relativo e que é um desgaste sentir tanto, TODA a Vida.

Respondi-lhe que não sabia viver de outra forma. Que não fazia o meu género.Que vivi sempre com intensidade e que, embora sabendo que é desgastante, também sabia que não sabia ser de outra forma.

Dizia ele:

-Sabes, nada é eterno. Tudo tem um fim. Tudo é efémero. Os sentimentos , as pessoas, as zangas, as alegrias, as tristezas... O Amor.


-Que não - disse-lhe eu - Na vida busquei e busco sempre o que é eterno. Só assim sei ser. Tudo é eterno para mim,. Principalmente o Amor. O amor. Não me refiro ao sexo. Refiro-me mesmo ao Amor! Aquilo que sentimos "apesar de" e não "porque".Entendem? O Amor. O Amor mesmo com todos os defeitos, tiques, manias, fracassos,....mesmo com isso. Percebem? Estão a ver?

( Isto já parece o gato fedorento!)

Só deixa de amar quem nunca amou. Não se pode amar hoje e, amanhã, como num passe de mágica deixar de amar.

O que eu penso é que há pessoas que não sabem amar. Uma verdadeira desgraça. E não sabem deixar-se amar.

Então inventam desculpas, dizem que... são marginais nessas coisas, colocam- se um rótulo de marginais, no sentido de superiores, mais intensos e mais sábios, mais perfeitos, mais supremos, mais no Olimpo e, dizem que os outros criam sempre qualquer coisa, qualquer mal estar, qualquer fricção, qualquer instabilidade... Sim... e deixam de amar coitados.É uma pena.

Tenho para mim que são crianças frustradas, ou demasiado mimadas ou nunca amadas. Os outros são sempre os culpados dos seus fiascos. Viver com frustrações ou dificuldades é culpa alheia. Eles são perfeitos. Essa coisa da imperfeição, das chatices, dos "stresses" do quotidiano é para os outros e são os outros que os criam.

É. Ao estilo do filósofo existencialista francês Jean Paul Sartre na sua célebre conclusão: - "O Inferno são os outros!"

Claro! Os outros. os espelhos da nossa alma. E principalmente os que nos amam e nos dizem por isso mesmo o que não gostam.O que em nós é egoísta, inseguro egocêntrico. E que em nós se serve dos outros e depois os larga à deriva... O que em nós não presta.

Não precisamos de mais ninguém para sermos infelizes a não ser dos outros.

A solidão tem as suas dores, deixa-nos secos, irracionais e insensíveis. Mas oferece nos uma enorme vantagem:

Não ameaça as imagens que cultivamos a nosso próprio respeito, não ameaça o nosso ego. Os outros sim , mas enquanto não nos conhecem bem por dentro. O Outro expõe-nos como um espelho ( da Bruxa da Branca de Neve talvez) o que somos e não queremos saber, nem aceitar que somos.

E que quando descobrimos que os outros conhecem, tentamos esconder fugindo, porque a coragem de perceber que nos amam ou podem amar "apesar de"...não existe. Simplesmente porque essas pessoas não se sabem deixar amar.

É por isso que vivo na intensidade de sentir que tudo é eterno para mim. Simplesmente porque quando amo, logo existo , simplesmente porque só existo quando amo. Simplesmente porque amo. E simplesmente porque se ama "apesar de".

ACCB

2.3.07

“Nenhum de nós pode salvar-se sozinho; ou nos perdemos de uma vez juntos, ou nos salvamos juntos.” (Garcin)

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domingo, março 04, 2007

A Hora de Todos os Encontros




Ontem disseste que querias encontrar-te comigo.
Perguntei-te pela hora.
Disseste-me pelas 21h00, pelas 17hoo pelas 13hoo ou pelo meio dia.
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Respondi-te que pelo meio dia.
É a hora de todos os mistérios.
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Depois disse-te que podia ser pelas 7h00 da manhã.
Quando no inverno o Sol aquece a praia e beija a maré.
Também é uma hora mistica... a da areia e o mar....

Riste-te.

Tu nunca acreditaste que na praia o nascer do Sol é mistico e, que na praia, o Pôr do Sol nos transporta para a eternidade.
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Nunca acreditaste que o aroma do mar era o teu aroma misturado com o meu e que, o brilho da luz matinal era o meu sorriso só porque tu estavas ali.
.

Tu nunca acreditaste que o Amor é para sempre...
Como a maré... para sempre.....
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Perguntaste-me a que horas então.
Pelas 7- disse eu.
Não. - disseste - Então pelo meio dia, a hora de todos os encontros.
.
Mais uma vez vamos perder o nascer da maré nos braços do mar...- disse eu.
Riste-te e disseste até amanhã.
.
Mas não foste.
Nem com a maré.
Também não ficaste.
Qualquer coisa a meio do tempo te parou....
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Disseste-me depois que me querias ver
Que as saudades de mim eram tantas...
Que os meus cabelos negros faziam falta nas tuas mãos e o meu respirar fazia falta aos teus sentidos....
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Mas eu não fui.
A maré tinha ido...
E eu não fui..
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Doía-me a alma porque perdera a hora da manhã e também a hora de todos os encontros....
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Há um misticismo nas horas que tu não entendes....

Um dia, a hora de todos os encontros vai soar...

Nesse dia... haverá um pôr do sol que nos transportará para a eternidade e ficaremos sempre com os teus dedos com saudades do meu cabelo,
e com a luz da manhã sem o meu sorriso,..
porque tu não estás.
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ACCB- Domingo, Fevereiro 25, 2007
EM RESPOSTA A UM DESAFIO DO ANÓNIMO FEITO A MIM E À NI _ AQUI

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sábado, fevereiro 03, 2007

Indulto /PR/MJ/Pareceres e arguidos.


***
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O indulto pressupõe uma pena já em execução ou que o agente tem de cumprir, reconduzindo-se a uma simples alteração da sua duração ou a uma diminuição do seu rigor.

Mas pode ser formulado estando o arguido em liberdade condicional o que, não é o caso.
Assim, normalmente, é concedido após, pareceres do Tribunal de Execução de Penas, do director do estabelecimento prisional, Instituto de Reinserção Social, etc.....

O papel do juiz do Tribunal de Execução de Penas esgota-se na emissão de parecer (eventualmente precedido de obtenção de elementos e/ou esclarecimentos tidos por necessários).
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O juiz não conhece da tempestividade do indulto.
Nem decide.
Limita-se a proferir um parecer que lhe é pedido.
É ao Presidente da República que cabe o poder decisório aqui.
É ele o competente para o decidir.
É o arguido que o requer.
O Juiz de execução de penas, apenas, dá um parecer que lhe é pedido.
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Não parece que faltam aqui algumas peças importantes?

É uma matéria da competência do Presidente da República, sobre proposta do Governo,
portanto, a única coisa que eu acho que deve ser feita é ser esclarecido com o ministro da Justiça o que aconteceu”, afirmou Marques Mendes, que se encontra nos Açores.
O líder do CDS-PP também já exigiu que o ministro da Justiça vá ao Parlamento explicar a “falha grave”.
“Esta é uma falha que não poder ser indultada”, afirmou à agência Lusa José Ribeiro e Castro, exigindo explicações “o mais depressa possível” sobre este “indulto a um foragido à justiça”. AQUI
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terça-feira, março 28, 2006

Porque sou possessiva

" Amo a Liberdade
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Por isso, deixo livre tudo o que tenho.
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Se voltar é porque conquistei,
se não,
é porque nunca possuí! "

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segunda-feira, março 13, 2006

O Menino dos Olhos de Cristal

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( O Mote sugerido pela Morgana)
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Pediu-me a Morgana a descrição de uma experiência profissional.
Não saberia dar-lhe vida se não a descrevesse em discurso directo na sua quase totalidade. Fi-lo já num draft de um livro que pretendo editar. Fica aqui um dos capítulos do mesmo escrito em Setembro de 2003 e atirado para uma gaveta desde aí.
São muitos casos. Todos reais.
Este é talvez dos mais marcantes porque dos mais dificeis de enfrentar.
Interrogar uma criança vitima de abuso sexual não é fácil......
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...............................................
Porque não me disse fala-me de ti.... ou fala-me das tuas experiências... ou fala-me das tuas recordações, de páginas que desfolhaste na tua vida e por uma razão ou outra guardas na lembrança, de momentos teus ainda que profissionais…

Automaticamente lembrei-me de um rapazinho a quem dera o nome de “o rapazinho com olhos de cristal”.
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Tinha e tenho, uma tendência ou, uma necessidade, para dar nomes a cada personagem ou pessoa que me passe em frente. Umas vezes para melhor recordar este ou aquele, outras para não esquecer as palavras proferidas e a forma como o foram.
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Lembrava-me de ter comentado que aquele julgamento era como tantos do género, o julgamento do despudor do nosso pudor.
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A imagem passou-me inexplicavelmente pelos olhos e pela memória (...) trouxe-me a sala de audiências, o momento e o menino dos olhos de cristal....
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“Às perguntas que lhe vou fazer sobre a sua identidade, é obrigado a responder e a responder com verdade sob pena de não o fazendo incorrer em responsabilidade criminal.”(...)
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“Às perguntas que lhe fizer sobre os factos vertidos na acusação, a essas, só responde se quiser e apenas para sua defesa.”
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O arguido identifica-se secamente e quanto aos factos nega-os sem mais. (...)
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O ofendido entra na sala. A pergunta cai sobre ele de imediato, sem esperas ou preâmbulos.
-“Vais-me dizer o teu nome todo.
-(...)
- Quantos anos tens.
-Tenho 10 anos... 8 anos... 13 anos... 9 anos....
-Que fazes?
-Sou estudante.
-Conheces esse senhor aí sentado atrás de ti?
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A cabeça roda a custo por cima do ombro e os olhos focam o que teimam não ver.
Fingem que o viram.
Estão fartos de o ver, todos os dias e todas as noites.
Ultimamente só em pesadelos ou memórias de vergonha e angústia, e de sentimentos de culpa e revolta.
O som não sai da garganta à pergunta do Juiz, mas a cabeça acena que sim, que o conhece.
Como poderia não o conhecer!
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Como o julgamento deve ser gravado para maior garantia da defesa do arguido e prova do apuramento da mesma prova, o Juiz insiste:
-Conheces esse senhor? Tens de dizer em voz alta... para que fique gravado.
.
E a barreira estabelece-se. Entre o menor e aquela criatura de beca preta. Também ela uma imagem preta.
As palavras martelam-lhe os ouvidos. Para que fique gravado. Para que ninguém duvide que o conheces. Para que saibam e não duvidem que a criança conhece o arguido.
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E a barreira cresce no gesto mais uma vez repetido, ou rejeitado, de olhar aquele ser ali sentado, como uma coisa negra também, mas silenciosa.
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-Sim. – o som sai tímido e nervoso da garganta e os olhos transmitem a revolta e a repulsa por estar ali e ter de responder e ser sujeito ao que ainda nem sequer começou.
-E conhece-lo porquê?
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Porquê meu Deus?! Porque tinha de lhes dizer porquê se eles já o sabiam? Pois não o chamaram ali por o saberem? As mãos torcem-se e retorcem-se enquanto os braços se esticam até aos joelhos com os dedos estrangulados uns nos outros. Os pés balançam no final das pernas procurando conforto em algo que não existe naquela sala onde todos o abafam e o olham em silêncio.
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-Não me queres dizer porque o conheces?...
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- Tenta o ser que enverga a beca, derrubar um pouquinho da barreira existente entre si e a criança.
Mas o peso de uma sala claustrofóbica, com seres claustrofóbicos, olhares desconhecidos e acusadores com o peso de uma culpa que não é dele, esmagam-no e retiram-lhe qualquer poder de resposta.
Mais uma vez a cabeça acena afirmativamente mas a garganta esgana-lhe qualquer réstia de coragem que ensaiara antes de entrar para o suplício.
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-Olha para mim, eu sei que tu não queres estar aqui. Eu também não quero fazer-te estas perguntas. Mas tenho de as fazer. Precisamos todos de saber como tudo aconteceu... se aconteceu...( aqui as coisas correram menos bem, mas prossegue em tom calmo) o que aconteceu... Se nos quiseres contar é claro. Mas se não nos contares... nunca vamos saber.
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Os olhitos voltam-se agora vendo mesmo um rosto que sorri com alguma simpatia.
O cérebro descodifica a imagem e percebe que é uma mulher.
Tem um ar protector se lhe separar a cabeça daquela capa preta.
Ignora ou tenta ignorar os outros dois, ao lado, silenciosos e observadores também vestidos de preto.
A voz tenta mostrar a vontade de comunicar mas sai quase inaudível.
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-Conheço. E os dentes mordem o lábio com força.
-E de onde? - insiste a cabeça que foi separada da beca.
-Daquela casa. Aquele dia .... esse que dizem aí....
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O diálogo parece querer ganhar forma. Com um olhar a Juiz indica ao funcionário que é altura de retirar o arguido da sala e este conduz o mesmo ao exterior.
.
Apercebendo-se do facto o menor, debruça-se para a frente continuando a balançar nervosamente as pernas e aperta o rebordo da cadeira com as mãozitas pequenas e suadas.
Os olhos voltam a incidir naquele rosto de mulher que tenta a todo o custo separar da capa preta para poder dar-lhe vida.
.
-Então vamos lá falar um com o outro. Conheces aquele senhor do dia (...) daquela casa... lá no teu prédio. Não é?
-Sim.
-Sabias que ele morava lá....
-Sim.
-Já o conhecias havia muito tempo?
-Sim.
-Falavas com ele?
-Não.
-Olha,... tu costumavas brincar por ali sozinho?!
-Não... com os meus amigos.
-E quem são os teus amigos?
-O Pedro, o Miguel, o Jonas...
-Brincavam a quê?
-Sei lá...muitas coisas...
-Jogavas futebol?
-Sim.
-Gostas de futebol?!
-Sim.
-Qual é o teu jogador preferido?
-O Figo.
.
O tom é monocórdico mas entre os dois personagens vai-se criando um canal de comunicação em que o que existe em redor se vai esbatendo.
A certa altura dá a sensação ao Juiz que só os dois estão na sala.
É como uma sessão de hipnotismo.
Tudo o que está em redor, deixa obrigatoriamente de existir.
Um só ruído e quebra-se a ligação. É preciso criar empatia e ... fazer silêncio.
.
-Os teus amigos também conhecem aquele senhor?
Bruscamente a imagem do futebol e do ídolo desvanecem-se e as perguntas difíceis voltam.
Mas a cabeça por cima da capa preta continua separada da mesma. E ele responde.
-Conheciam. O Pedro também, lá foi um dia.
-Onde?
-A casa dele do... Sr. ...deste...
-Sabes o nome dele e o que ele fazia?
-Sim.
-Então diz lá.
-O Sr. Silva. Dizem que ...não sei o que fazia.... não fazia nada.
-Foste a casa dele muitas vezes?
-Não. Só naquele dia.
-E porque foste lá?
-Ele chamou-me.
-Chamou-te para quê? Porquê?
.
As mãos voltam ao rebordo da cadeira e o corpo inclina-se e balança-se.
É um rapazito franzino.
Veste umas calças de ganga e uma T-shirt azul escura sem estampados ou marcas.
Calça ténis como qualquer rapaz da idade dele e um Kispo próprio para o tempo que se faz sentir.
.
-Disse que tinha um jogo de computador.
-E foste ver?
-Sim.
-Mas porque foste? Nunca lá tinhas ido. –
.
Os olhos fogem como que a não querer admitir que ainda hoje pensa que a culpa é sua. Que os pais sempre lhe disseram que não se ía a casa de estranhos. Que os amigos vão achar sempre que foi um fraco....
-Foste porquê? Acreditaste nele? Querias o jogo? Achas que um homem daquela idade tinha um jogo de computador?
-O Pedro já lá tinha ido antes...jogar no computador....
-Tu não tens computador?
-Não.
-E antes... com o Pedro tinha acontecido alguma coisa?
-Não. Foi só naquele dia.
-E naquele dia... como foi?
.
A cabeça da Juiz incorpora-se mais uma vez na beca, é absorvida por ela e, os traços do rosto desaparecem.
Mais uma vez é uma coisa escura em relação à qual não há qualquer sentimento a não ser o de terror.
Emite sons que não entende.
Não é voz, não são palavras, são sons que não consegue descodificar.
A sua cabeça gira entre aquela imagem informe e o dia em que foi jogar no computador.
O dia em que o homem... aquela coisa que saíra da sala... também ela só de uma cor - o negro – despiu as calças à frente dele e o obrigou a fazer o que só de pensar lhe dava medo, nojo, raiva, terror... que iria viver sempre consigo, que o iria magoar e envergonhar cada vez que o lembrasse.
.
E porque cedeu?... porquê? Teve medo... foi tudo tão súbito e não percebeu nada. Já vira o pai nu no banho.
Era normal....
Tomava banho com o pai... de manhã antes de ir para a escola...
Aquele homem estava ali... sem calças.. ou com as calças pelos joelhos... não se lembra bem, ... agarrou-o, abriu-lhe os olhos desmesuradamente... disse que o matava se gritasse... que se disse-se a alguém matava também o pai e a mãe... e a irmã pequenina que tinha tão poucos meses... que queria ... queria que ele lhe fizesse... “um broche”... ele... “um broche”!...
.
Que o matava... que queria que ele lhe fizesse... e agarrou-lhe a cabeça...e que o matava ... e ao pai..., e à mãe... e obrigou-o a meter aquela coisa mole e mal cheirosa na boca dele... que o matava...que o matava... e à irmã... a todos.....
.
E deu-lhe um chocolate no fim, quando envergonhado e com nojo dele e de si fugiu daquela casa para a rua, sem destino....E nos dias seguintes convidou-o mais vezes... e deixou de ir à escola e fingiu-se de doente só para não ter de descer as escadas.
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E um dia quando ía com o pai e o viu, quase derrubava o pai com a fúria de fugir. E o pai desconfiou... e perguntou-lhe o que era... que acontecera....O coração de pai dizia-lhe que tinham feito mal ao seu menino, ao seu rapaz e, pelo olhar, fora aquele homem....
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Depois foi a conversa com o pai, o colo do pai e a sua insistência para que lhe contasse, o prometer que iam ao cinema depois de tudo esclarecido, o prometer que não diria nada ao Sr. Silva, um rebentar de choro misto de medo e uma primeira frase: - Ele disse que nos matava a todos!!!
(...)
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-Então queres contar-me?! Para o condenar... vais ter de me contar...Ou não queres que eu saiba? Não queres que seja castigado? Não te fez nada?
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O nó na garganta solta-se e em vez de palavras saem lágrimas e o corpo já não se balança, mas é sacudido por uma dor funda e indescritível de impotência para fugir dali, materializada em soluços convulsivos. A sua cabecita só pensa: “Porque tenho de lhes contar. Eles já sabem tudo. Já contei isto tantas vezes!”
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-Eu sei que já falaste disto muitas vezes... mas sabes...- é preciso que me contes a mim também.
- Agora é para eu poder dizer qual é o castigo... a pena dele... percebes? ...Ou não queres?
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Ela parecia ler-lhe os pensamentos. Seria “mágica”, bruxa?! A cabeça voltava a ter vida a ser de gente, mulher, a sorrir e a ter olhos que comunicavam com os dele....
O contacto retoma-se e o negro da beca desvanece-se.
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A pena dele.... Qual será o castigo que lhe vão dar.
Para ele não é imaginável.
Será igual à pena que deram aquele rapaz lá da rua que tinha assaltado a casa do João com ele lá dentro e tudo? E tinha partido tudo e até deixara o pai do João ferido e com vontade de o matar?! Levara 9 anos.
Ou será igual à daqueles que assaltaram a ourivesaria com caçadeiras sem munições mas deixaram o Daniel, o rapaz que lá trabalhava, morto de medo? Tinham levado 11 anos!
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Não, a sua imaginação não chegava lá.
Só apagando-o como nos jogos de computador... para nunca mais existir. E poder repetir o jogo para o apagar as vezes todos que se lembrasse dele... e de cada vez que o apagasse, iria lembrar-se menos dele e viver menos com aquela terrível imagem daquele dia e o peso daquela culpa que não tirava do meio do peito.
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E contou tudo àquela cabeça com olhos e um sorriso.
Disse-lhe tudo... entre lágrimas, fungadelas, vergonhas... os pormenores mais sórdidos, as palavras dele,... o como, lhe agarrou na cabeça...o obrigou a fazer aquilo que ele nem percebeu logo bem o que era e o marcaria para sempre e o seu pudor lhe dizia que não estava certo.
De forma entrecortada, sem sequência, a custo... numa raiva mista de desespero e, certeza de que só contando, sairia dali e, que quanto mais depressa o fizesse mais depressa deixariam de o fazer recordar aquele inferno, contou tudo.
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Só não lhe contou dos seus medos mais obscuros.
Dos seus pesadelos.
Do terror que foram os dias em que descia as escadas e tinha medo de o encontrar.
Só não lhe contou do medo que teve dos pais saberem e serem todos mortos.
Só não, lhe falou da dor imensa, estrangulada de vergonha e nojo por si mesmo. E dos pesadelos que ainda o assaltavam muitas vezes.
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Mas viu-lhe nos olhos que ela sabia que era assim com todos...ou seria só com ele?! Com ele estaria sempre aquele peso e aquela lembrança... só com ele. E o ódio por aquele dia em que deixara que lhe fizessem aquilo. E o ódio por si mesmo que depois de tudo ainda trouxera o malvado chocolate que o homem lhe dera.
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Como se sentia só e pequeno. Tão só naquela confusão toda de vozes e perguntas e imagens e lembranças só de uma cor – o negro – a debruçarem-se sobre si, a fazê-lo viver o que não queria recordar.
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Nas notícias que passavam constantemente sobre o caso. Na importância que tinham dado aquele homem horroroso e como tinham falado dele, preocupando-se com o que ía na cabeça dele.
Preocupando-se só com ele.... Preocupando-se em pôr em dúvida tudo e todos... expondo tudo e todos... fazendo notícia à custa daquilo que ele não queria que ninguém soubesse.... Publicando revistas com o caso em páginas de letras grandes... abrindo telejornais com a sua vida....
E no despudor de todo aquele pudor dos outros... quando a mulher só com cabeça lhe perguntou:
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-Que sentes sobre tudo isto agora? Ainda tens medo dele?
-Não quero que ninguém me fale mais disto. Tenho muita vergonha e tenho Muito, Muito Ódio!!! Não quero voltar a falar disto.
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No mesmo dia o pai e a mãe também foram ouvidos.
A mãe, chorou sentindo-se culpada por o deixar brincar na rua com os outros e não estar 24h00 ao seu lado.
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O pai disse que estava cansado daquilo, que deixassem o miúdo em paz.
Que dessem ao farsante, a pena mais alta que lhe pudessem dar e fosse equivalente ao sofrimento do filho.
Com pudor ainda disse baixinho em voz quase inaudível mas que soou como o estampido de um tiro na sala do Tribunal:...”Só a pena de morte”.
..

O Juiz ainda pensou em reagir... dizer algo ... fazer alguma observação.
Mas, por pudor perante a dor de um cidadão, de um pai, que não percebe porque é mais pesada a pena de quem atenta contra bens patrimoniais, do que a de quem rouba a alegria de viver e marca uma criança na sua intimidade até ser, e ainda enquanto é, homem ou mulher, não conseguiu dizer que o Bem Supremo é a Vida e que nada poderá atentar contra ela, e nunca aquele colectivo, ainda que fosse implementada a morte como pena, assinaria uma sentença de morte... .
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Como iria explicar aquele pai, que é punido com prisão de 1 a 8 anos quem praticar acto sexual de relevo com ou em menor de 14 anos, ou o levar a praticá-lo consigo ou com outra pessoa.
Que se o agente tiver cópula, coito anal ou coito oral com menor de 14 anos é punido com pena de prisão de 3 a 10 anos;
Que é punido com pena de prisão até 3 anos quem praticar acto de carácter exibicionista perante menor de 14 anos;
Actuar sobre menor de 14 anos, por meio de conversa obscena ou de escrito, espectáculo ou objecto pornográficos;
Utilizar menor de 14 anos em fotografia, filme ou gravação pornográficos;
Exibir ou ceder a qualquer título ou por qualquer meio os materiais previstos na alínea anterior; ou
Detiver tais materiais , com o propósito de os exibir ou ceder;
E que quem praticar os actos descritos com intenção lucrativa é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos.
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Como dizer-lhe que qualquer destas penas é inferior às do crime de roubo ou do dano qualificado?!
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Ou como explicar-lhe que é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 240 dias quem praticar actos sexuais com adolescentes, entre os 14 e os 16 anos, sendo maior e tendo com eles cópula, coito anal ou coito oral , abusando da sua inexperiência.
E explicar-lhe que esta pena é igual à de quem utilizar automóvel ou outro veículo motorizado, aeronave, barco ou bicicleta, sem autorização de quem de direito, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal.
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E o Juiz silenciou... a vontade de dizer também que, enquanto Viva, a Vida continua a ser o mesmo Bem Supremo e que devem ser revistas as penas de todos os capítulos do Título I do Código Penal...porque todos eles são crimes contra esse Bem Supremo e que, qualquer crime desse capítulo não devia ser despudoradamente punido com uma pena inferior a qualquer crime contra o património...
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Mas, por pudor, o Juiz manteve-se em silêncio.
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ACCB - Setembro de 2003 copyright

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