O "CleopatraMoon" despede-se de vocês, por tempo indeterminado com este texto. É um texto de mistério, um escrito de magia e, imaginação ...
Deixo-vos também mais alguns textos que tinha em rascunho.
Uma forma de ficar por aqui ainda algum tempo ou, como diria o poeta : -"Digo-te adeus, como se não voltasse ."
A HORA NONA
Tinha no parque uma árvore que se ficava por sobre uma fonte em que grifos de pedra olhavam os que por ali paravam , silenciosos e observadores.
Diziam que era um mistério aquela fonte e outro mistério aquela árvore. À fonte chamavam-lhe a fonte das quimeras. A árvore não tinha nome.
Desde pequena que gostava de parar por ali, mesmo quando a casa e toda a quinta ficou ao abandono.
Um abandono triste e desesperado de quem sente que foi feliz e deixou de o ser por mão de outros que não merecem a sua felicidade.
Desde menina que era aquele o canto dos seus segredos. Parava por ali em tardes quentes de Agosto, quando Agosto era mesmo Verão e o silêncio do parque lhe contava histórias de princesas mouras e cavaleiros cristãos, de cavalos árabes e princesas cristãs que fugiam de noite e, diziam depois, que tinham sido levadas nos braços do vento para o norte de África.
A árvore estendia os seus braços e, sentia que ficava silenciosa a ouvir-lhe os pensamentos.
O Grifo, o que sempre ficava voltado para ela, por causa do local onde escolhia sentar-se, parecia aos outros um Leão, mas não era, era um Grifo e ela não sabia o que significava.
Só mais tarde, já mulher encantada pelas histórias dos templários, percebera o que significava aquela estátua de pedra que deveria jorrar água pela boca mas estava seca e não deixava contudo de ter vida.
Não falava das suas descobertas a ninguém. Ninguém iria perceber. Todo o Mundo iria duvidar. Já lhe parecia o auto da barca do Inferno.
Naquela tarde e pela primeira vez, levara-o consigo.
Era Julho. Uma tarde quente de Julho que ali se tornava fresca e serena. Nunca ali levara ninguém Era o seu canto de segredos e miragens. O lugar de meditação e imaginação. O recanto dos deuses que partilhavam com ela segredos que só a serra conhecia.
Sentia sempre que ali ía, como que um apelo de buscar o que de mais profundo e íntimo havia em si e, conseguia encontrar ou descobrir o que não conhecia. Era um local sagrado e, esperava que ninguém o violasse.
Mesmo nos anos em que a Quinta ficara desgrenhada anos a fio, doente e abandonada, aquela árvore e aquela fonte continuaram, a ser o canto das descobertas e das partilhas com a serra e a natureza, com o seu Eu interior.
Todos diziam que parecia ensombrada e houve dias em que quase teve medo de entrar lá dentro, mas, a magia do lugar quebrava o temor humano e ela sabia que aquele era o seu canto e o seu segredo.
Naquela tarde de Julho, a luz do Sol que ainda não se tornara dourada, espreitava por entre o verde das folhas e proporcionava a frescura de um jardim oriental que só naquele local era possível e debaixo daquela árvore era o céu.
A sonoridade da cidade e o stress de uma manhã de trabalho intensa diluíram-se no silêncio em volta.
Ele sentou-se na sua frente, tirou o casaco e arrancou a gravata..
Nenhum dos dois falava, ambos sabiam que era urgente não quebrar aquele silencio porque os olhos tinham coisas para dizer.
Um empregado colocou-lhe na frente o bolo de chocolate macio e coberto de creme quente a escorrer pelo prato.
Ela gostava, e gostava de lho dar aos pedacinhos....devagar, como se faz a uma criança que acabou de chorar muito e ainda soluça baixinho.
Os olhos encontraram-se e mergulharam no sentir de cada um ... as mãos não se atreveram a mover-se porque sabiam que os olhos diriam tudo e nem seria preciso a Voz fazer-se ouvir. Sabiam tudo, tudo, como a velha árvore que a conhecia de menina, como a velha fonte e os Grifos com todos os seus segredos em volta ...Eles sabiam que aqueles seres quase mitológicos os escutavam e sentiam o que eles sentiam.
Contaram-lhe que numa noite de lua negra, dois amantes ali se tinham perdido para sempre.Depois de se amarem como se o ontem e o amanhã existissem no nunca, tinham-se perdido na quinta, de noite, por entre as árvores,... ainda se falou que tinham caído ao poço...mas ela sabia que apenas tinham descido ao poço.
Perdidos do mundo lá fora, tinham jurado amor eterno como numa história de nunca mais ou uma história de inexistência e plenitude.
Tinham encontrado depois os brincos dela caídos sobre a cruz de Cristo no fundo do poço mas dele nunca encontraram nada.
Falou-se em crime mas não havia vestígios. Só sabiam que nunca mais ninguém os viu.
Pedacinho a pedacinho começaram a comer o bolo de chocolate sob os ramos verdejantes da árvore silenciosa. O tronco forte e protector parecia escutar o silencio da voz e ouvir o som do olhar.
E contaram o que lhes ia na alma , e juraram que era verdade, e acreditaram que não poderia ser de outra forma. E interrogaram-se porque era assim... e eles que nunca ali tinham pedido aquele doce, perceberam porque o partilhavam, perceberam o sabor do chocolate acabado de deitar sobre a textura macia que se desfazia na boca.
Perceberam o que só aquela árvore sabia antes deles.
O grifo pareceu sorrir. Ele reparou que havia um cálice na escultura aos pés do animal ....uma imagem entre o divino e o humano.
E falaram dos medos, dos impossíveis, da realidade e do sonho. E dos desesperos da distancia e da fraqueza da existência, da força da alma e da verdade dos sentimentos que não morrem no tempo. E do tempo que não conheciam e a que tinham pertencido e em que se tinham conhecido, como se de uma outra vida se tratasse.
Ele disse-lhe que sabia de um lugar onde o Mundo acabava e as terras desabavam...
Ela disse-lhe que sabia de um lugar onde o rio se abre ao mar, de um sentir, de um entregar-se num abraço para aliviar apenas o cansaço.
Ele disse-lhe que queria apenas deixar-se partir....
Os olhos dela disseram-lhe:- Sei de cor os teus silêncios.
E os olhos dele responderam-lhe: - Sei de cor o teu olhar.
E ela respondeu-lhe ainda: -Deixa-me ser a princesa das tuas histórias de encantar.....
E as mãos dele encontram-lhe os dedos finos e frios, e sorriu-lhe.
Uma lágrima deslizou pelo sorriso dela e, devagarinho, ele beijou-a e bebeu-a. Matava-lhe a sede .
Um sussurro de vento por perto trouxe o empregado que colocou dois cálices de um liquido que nenhum deles sabia o que era mas que beberam silenciosos.
Deram-se as mãos.
No tronco da árvore alguém desenhara disparatadamente duas letras que eram apenas uma , como só os gaiatos quando andam de amores.
Parecia um símbolo kármico, mas eles sabiam o que significava. Muitos anos antes uma garota numa tarde em que o Agosto era mesmo Verão, desenhara uma letra. Muitos anos depois, um homem apaixonado fizera o mesmo, sobre a mesma letra. Ele desenhara exactamente a mesma letra , numa noite de lua negra.
Beberam o liquido do cálice até ao fim.
Levantaram-se em silencio. Ele deu-lhe a mão e ambos sabiam até onde iriam
Quando iniciaram a descida olharam-se sorridentes.
Sabiam o que iam encontrar.
Lá no fundo, por sobre a cruz e a estrela estavam os brincos dela caídos no chão. Ele apanhou-os e colocou-lhos. Depois voltados para a luz que os espreitava por um dos túneis, caminharam sem medo da escuridão.
Um novo caminho se iniciava.
Ao fundo havia um recorte ,... o da velha árvore da fonte dos grifos....
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ACCB
16-01-2008 18:52
( este texto foi escrito em resposta a um desafio da NI com o nome - " A árvore dos amantes" - Blog MOMENTUS - mesmo aqui ao lado)
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